Quarta-feira, Novembro 11, 2009

17

Perto de meia-noite e ela continua deitada com as mãos apertando os lençóis, sente frio, sente calor, sente o vento que conseguiu entrar pela porta, pelas frestas da porta, e sorri uma, duas, quatro vezes. Atravessa os dedos pelos cabelos com calma, desliza a palma dos dedos pelo pescoço tentando sentir que está mesmo sentindo tudo e apenas deixa que as pernas possam mesmo tremer, assim como treme o mundo. Esses são os dezessete melhores segundos de sua vida e ela sabe bem que pode demorar a se repetir. Sobretudo enquanto estiver sozinha.

Bernardo Biagioni

Viajante solitário

Pegou o que tinha na gaveta, o que tinha para vender - pegou até o colchão – e colocou tudo na varanda esperando alguém aparecer para comprar. Tinha decidido, há vinte e cinco minutos, que iria sair fora a qualquer custo e que se não fosse agora nunca mais seria capaz de ir embora. Deu um beijo no pai, dois na mãe, escreveu três ou quatro cartas e saiu pela porta arrastando a mala no chão, ansiosamente preparado para ver para ver tudo, para ver o mundo, e se sentir em casa.

Bernardo Biagioni

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Casebre

Fica difícil de imaginar o que ela viveu nos dias em que esteve se escondendo no meio do mato, perdida em um casebre de madeira, escutando pelas frestas das paredes o barulho da cachoeira, o barulho da noite, o grunhido dos morcegos. Sem ter vontade de dormir, sem ter hora para acordar, colocando para dentro doses incontáveis de álcool, tragos ininterruptos de cigarro e respirando poesia, respirando vida. Cambaleante, mas nunca bêbada o bastante a ponto de não saber dançar, de não saber valsar com as tristezas contidas que tinha deixado para trás na cidade. Puramente feliz - e verdadeiramente feliz – e por isso cantava e proclamava os traços e compassos do tempo, do vento, e do calor imensamente quente que invadia a madrugada sem calma, sem cautela. Nunca sozinha, mas eternamente solitária, de dentro do casebre ela esperava o dia amanhecer para que nunca mais precisasse dormir. Foram dias de despedidas, de fugas e de pouca saudade. Voltou ontem ou anteontem. E nunca mais vai ser a mesma.

Bernardo Biagioni

para nós

Saímos às sete da tarde, quando o sol não estava mais lá no alto, paramos no começo da estrada para encher os tanques e abastecemos tudo – sobretudo nós mesmos – e nos despedimos de tudo que podíamos deixar longe por quantos dias fossem necessários. Escolhemos o destino no caminho, marcamos com um xis no mapa, e prometemos que não conversaríamos nada que não fosse só com os olhos enquanto estivéssemos juntos, e apaixonadamente juntos. Tínhamos, eu sei, o menor tempo do mundo. Tínhamos apenas todo o tempo do mundo.

Bernardo Biagioni
Rogerthat - Use Your Heart

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

para você

Tudo bem que eu não estou aqui muito bem - se é que você me entende - mas em todo caso, essa música me fez ver você, me fez lembrar de você, lembrar de nós dois enquanto éramos apenas nós dois. Lembrei daquela noite que viramos juntos sentados no carro conversando, você me evitando sorrindo e tudo, tudo perfeitamente no lugar. Lembrei também do dia seguinte, da tarde seguinte, das nossas noites vazias e das conversas que nunca conversamos, sempre evitando falar de futuro. Lembrei do vento no seu cabelo no dia em que nos conhecemos, as primeiras palavras, os primeiros silêncios e os quatro ou cinco encontros que desperdiçamos só naquela semana. Enfim. A música é para você, um presente meu para você, e se gostar guarde para depois. Guarde para quando voltarmos a ser nós dois.

Bernardo Biagioni
Dispatch - Hey Hey

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

21

Não sei mais como me segurar e não te ligar para dizer tudo que estive pensando nestas últimas cinco ou seis madrugadas vazias que passei na rua, nas ruas, trocando sempre de esquinas, de músicas, de súplicas. Cantando e errando, subindo e descendo, pedindo sozinho e em silêncio para que não chova, para que eu não tenha que ir embora tão cedo enquanto há tanto para ver, tanto para viver. Estou me enganando e enganando o nosso tempo, o que vamos ser e o que fomos nas madrugadas que dividimos, nos beijos que nos permitimos e nas conversas que desconversamos. Foi - e continua sendo - amor em silêncio, medo e desejo, e vinte e tantos desencontros. Vontade e vontade.

Bernardo Biagioni

Sábado, Outubro 17, 2009

Liberdade

Me ligou para contar que agora está se sentindo finalmente livre, e realmente livre, e que estava com as malas jogadas no banco de trás do carro, os vidros todos abaixados e acelerando sem ter onde chegar. Disse que tinha aprendido, que tinha entendido o segredo, e que estava suficientemente preparada para colocar tudo em prática, tudo na estrada, e assim poder fugir de si mesma. Senti daqui que ela estava sorrindo de lá e senti que era verdade, que estava acontecendo de verdade, e que ela estava mesmo indo – finalmente indo – indo atrás de sua inconsolada liberdade.

Bernardo Biagioni

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Hoje

Ameaçou que ia chover e não choveu e daqui de cima da varanda eu vi um casal colocando as malas de volta no carro, os sorrisos de volta nos rostos e a tristeza toda ficando para trás, ficando no passeio, aonde só tinham caído três ou quatro gotas de chuva. Ele estendeu o braço direito, fechou o porta-malas com calma e voltou o rosto para trás, depois o corpo inteiro para trás, e ficou olhando até o ponto onde a sua rua desaparecia no horizonte. Talvez fosse a última vez que veria aquela rua. Ou talvez tenha sido a primeira. E então apertou os dedos na palma da mão, colocou a perna direita em movimento e abriu a porta do carro sorrindo até não poder mais. Estavam partindo na primavera, juntos, exatamente como haviam combinado no dia em que se conheceram. Hoje.


Bernardo Biagioni

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Sexo

Ela tinha mesmo era medo do silêncio. E também por isso cantarolava sozinha no escuro todas as noites quando já estava deitada na cama, ficava desenhando com os dedos no teto as letras do seu nome, rememorava as últimas quatro ou sete desventuras que tinha escrito, e seguia sorrindo largamente tropeçando nas músicas que arrastava não por simples necessidade. Puxava o rádio desligado para perto da cama e apertava os botões com calma, já tinha decorado que o segundo da esquerda para a direita colocava a música para desligar em vinte e cinco minutos. Então agradecia – mas não a alguem ou a alguma força mágica superior – e virava de lado, bem de lado, que era para poder dormir ouvindo o barulho que vinha dos vizinhos de baixo, que estavam sempre acordados.

Bernardo Biagioni